Se Hoje Fosse Domingo
Se hoje fosse domingo, tenho a certeza que te encontrava. Sei que não te poderia ver, é o dia da família. Conheço, no entanto, os teus passos. Por isso, bastava seguir-te. A tua saída de casa, sonolenta, sentada no banco de trás do carro dos teus pais.
Telefonavas ao fim da tarde. Eu já quase desesperava. Em minha casa, ao domingo, cada um toma conta de si, por isso, as horas passavam à tua espera. Quantas vezes desejei que tivesses coragem para faltar ao almoço de família e correr ao meu encontro! E, apesar disso, acabei por aceitar a tua ausência, vivia contente porque, no dia seguinte, te amava ainda mais, como se a saudade do teu corpo me desse uma nova força.
Um dia sonhei que tinha passado um mês de domingos. Há muito te não via, no sonho adiavas os nossos encontros com pretextos sem sentido. Caminhava por uma praia deserta em busca de ti, pássaros estranhos (as gaivotas da nossa praia?) pousavam a meu lado, a noite chegava e não te via. Estavas sempre ao pé de mim, excepto aos domingos.
Devo-te dizer que nunca suspeitei de nada. Agora que olho para trás e tento compreender, tenho a certeza que nunca deixaste um sinal, um indício qualquer, um simples olhar, qualquer coisa que me fizesse pensar. Insisto que te via todos os dias excepto aos domingos. Já não somos crianças, como sabes não foste a primeira, mas ainda te hoje repito que só a ti amei a sério. Por que razão fingiste até ao último momento? Por que motivo corrias para mim (excepto aos domingos...) com o sorriso que sempre adorei?
Não sei se quero recordar, embora tenha a certeza que nunca esquecerei. Também deves lembrar-te. O Miguel avisou-me a tempo, sempre foi o meu melhor amigo. Quando fui ao vosso encontro, só queria não ver o que estava certo de encontrar, tu a curtir com um gajo qualquer na festa de escola.
Não houve ralhos nem zangas, gritos ou cenas foleiras. Tudo acabou com a tua frieza e o teu olhar distante, já não gostavas de mim, pronto.
Oh, como fiquei cansado! Como desejei morrer naquele instante, como senti o mundo a desfazer-se à minha volta! Quero que saibas que a raiva tomou conta de mim por breves instantes, envergonho-me mas digo-te: apeteceu-me que morresses comigo, se não eras minha não poderias ser de mais ninguém.
Depois, uma estranha calma tomou conta de mim. No dia seguinte era domingo, já estava habituado a passar sem ti.
O tempo ajuda, podes crer. Hoje é sábado, sinto as saudades do teu corpo. Amanhã não te vou ver, mas não faz grande mal, nunca te veria. O que me custa é ter de dar explicações aos meus pais, nunca poderão perceber como te amei. Os pais pensam sempre que são namoricos sem importância, não entendem como a minha vida era feita a pensar em ti. Vê lá que o meu pai até disse que não há falta de mulheres! Se calhar ainda não percebeu nada...
Se hoje fosse domingo, ia à tua procura. Parava à esquina do restaurante e ficava a ver-te, tenho a certeza que continuas a sentar-te naquela espécie de montra, de frente para a estátua. Amanhã, olha em frente: devo estar lá, vê com cuidado, conheces-me bem, sou mesmo eu.
Bernardo (adaptado)

1 Comments:
O texto é lindo. E percebo-te perfeitamente, porque parece que a distância dá ao amor algo de mais forte. Parabéns.
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