19 March 2005

Escravidão

Disseram-me, quando era pequena, que podia tocar o céu… mas o céu está tão longe! E há uma trepadeira que me prende a este mesmo jardim onde fui deixada sozinha. Uma trepadeira que sobe em direcção ao azul e que me vai sufocando devagar, prendendo-me os movimentos, fazendo lentamente parar a minha respiração. E se ontem o ouvia, já não sei se o que hoje oiço é realmente o meu coração ou o sussurro do vento, que lança os meus cabelos em direcção ao horizonte.
É uma trepadeira de braços grossos, folhas gordas e carnudas, que agora, beijada pela Primavera, se vai enchendo de flores vermelho-sangue, o meu sangue: não há força mais revigorante que a força com que ela trepa em direcção às estrelas, à noite, e ao sol, de manhã; a força que outrora me roubou.
Agora, aqui, presa, a chorar lágrimas que ao tocarem no verde selvagem do chão, onde repousam os meus pés, se tornam pequenas gotas geladas, vejo a vida passar ao meu lado, a roçar-me pelos joelhos e a deixar-me para trás.


Leonor Rodrigues

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