A Balada do Café Triste
Nunca imaginei que algum dia chegasse cá… Caminhava pensativo, na suja e escura rua que lá fora repousava tranquila, esquecida… Só a luz da lua crescente se infiltrava por meio dos prédios apertados entre si…
Tentava imaginar que os papéis a esvoaçar na superfície do chão fossem folhas secas de Outono, e que os altos arranha-céus fossem árvores mais antigas que o mundo próprio, mas não… Era aí que o homem estava destinado a viver, numa floresta vinda numa revista de “faça-você-proprio”. Levantei a cabeça ao céu… As estrelas eram quase impossíveis de olhar, devido ao excesso de luz na cidade… Eram três da manhã… Ainda faltavam horas para o amanhecer. Esqueci fosse o que fosse e segui caminhando.
Um bêbado vinha andando pela rua, cuspindo palavras vulgares enquanto se agarrava ao mundo para não passar ao mundo dos sonhos. É possível que o homem tenha uma vida desgraçada… É possível que a sua vida seja melhor do que a minha. Eu achava que era melhor que o homem passasse então ao mundo dos sonhos, já que nas suas palavras, manifestava um rancor profundo a este mundo.
Parei por um instante frente a um local. Duas mulheres atrevidamente vestidas, fumavam à sua porta, à procura de dinheiro fácil, à procura de alguém que marcasse as suas vidas para sempre, mesmo que elas não dessem por isso.
“Alô, monsieur… Tive problemas em casa… esta noite não tenho onde ir dormir… faço o que você quiser…” disse uma daquelas almas mortas para mim…
A minha face virou-se para o anúncio de grosseira luz acima da porta… Digo grosseira, pela agressão que faz, no meio de tanta escuridão. Dizia “A Raposa e A Estrela”.
Não há necessidade de dizer que irrompi no local.
A seguir, não consegui olhar a mais de meio metro. O fumo intenso, de quanta nicotina, ou substâncias ainda mais fortes, desfilavam elegantemente no ar, qual boémias borboletas. Perto de cem temas, podia ouvir nascer, crescer e ser cruelmente assassinadas, para logo perder-se no tempo, emitidas pelas vozes roucas e mórbidas, provenientes das rudes mesas de madeira tosca, que já começava a observar. Mas, como uma bem-vinda, comecei a ouvir uma musica como que vinda do céu: a voz de uma mulher cantava “Garota de Ipanema” ao fundo do local. Isto acordou uma luz em mim… Tanta que não era capaz de ficar ali. Mas fiquei… e aqui estou a ouvir mais baladas, a preencher esta folha de palavras inúteis, que relatam uma experiência espantosa….
Já acabou a musica. Só bebi um coinntreau. O homem a arranjar as cadeiras manda-me sair. E foi ali fora que me encontrei com o que estava à espera há horas: um céu cor-de-rosa… Um céu amarelo… Rubro. Em fim: um céu como Deus manda!
Midian Magoo

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